
Esperança
DO RIO - O site da "Revista de História da Biblioteca Nacional" (revistadehistoria.com.br) divulgou na noite de ontem uma lista com 233 nomes de acusados de tortura durante a ditadura militar.
Ela faz parte do acervo pessoal do líder comunista Luiz Carlos Prestes (1898-1990), que será doado ao Arquivo Nacional, no Rio, no próximo dia 3. A revista teve acesso exclusivo ao acervo -que inclui fotos e cartas familiares- e publicará parte dele em sua edição de janeiro.
A lista faz parte do documento "Relatório da 4ª Reunião Anual do Comitê de Solidariedade aos Revolucionários do Brasil", de fevereiro de 1976.
Segundo a revista, ela foi elaborada em 1975 por 35 presos políticos que cumpriam pena.
Entre eles estavam Hamilton Pereira da Silva, hoje Secretário de Cultura do Distrito Federal, José Genoino, ex-presidente do PT e assessor do Ministério da Defesa, e Paulo Vanucchi, ex-ministro dos Direitos Humanos.
A relação já havia sido publicada em 1978, pelo semanário alternativo "Em Tempo".
Impossível ler Privataria Tucana sem passar, antes, por Aloysio Biondi, em O Brasil Privatizado. É um tema aparentemente complicado mas que ressoa, até hoje, na memória coletiva. Como disse um motorista de táxi que me trouxe certo dia ao Higienópolis, baiano de Vitória da Conquista, ao ingressar no que ele chamou de “território dos bicudos”: “O negócio deles é vender”. O ex-presidente Lula explorou este sentimento muito bem, nos debates que precederam o segundo turno da campanha presidencial de 2006, quando lembrou que Geraldo Alckmin queria vender “até o avião da presidência”. Em 2010, Dilma Rousseff trouxe de volta a Petrobrax, que é o retrato perfeito da relação dos tucanos com o patrimônio público: enfraquece, desvaloriza, descaracteriza, desmilingue e… vende.
O livro já é de domínio público (aqui) e vendeu 150 mil cópias quando ainda não existia a internet. Vale a pena relembrá-lo e disseminá-lo.
PRIMEIRA PARTE
por Aloysio Biondi, em O Brasil Privatizado
Compre você também uma empresa pública, um banco, uma ferrovia, uma rodovia, um porto. O governo vende baratíssimo. Ou pode doar. Aproveite a política de privatizações do governo brasileiro. Confira
nas páginas seguintes os grandes negócios que foram feitos com as privatizações – “negócios da China” para os “compradores”, mas péssimos para o Brasil.
Antes de vender as empresas telefônicas, o governo investiu 21 bilhões de reais no setor, em dois anos e meio. Vendeu tudo por uma “entrada” de 8,8 bilhões de reais ou menos – porque financiou metade da “entrada” para grupos brasileiros.
Na venda do Banco do Estado do Rio de Janeiro (Banerj), o “comprador” pagou apenas 330 milhões de reais e o governo do Rio tomou, antes, um empréstimo dez vezes maior, de 3,3 bilhões de reais, para pagar direitos dos trabalhadores.
Na privatização da rodovia dos Bandeirantes, em São Paulo, a empreiteira que ganhou o leilão está recebendo 220 milhões de reais de pedágio por ano desde que assinou o contrato – e até abril de 1999 não começara a construção da nova pista.
A Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) foi comprada por 1,05 bilhão de reais, dos quais 1,01 bilhão em “moedas podres” – vendidas aos “compradores” pelo próprio BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), financiadas em 12 anos.
Leia mais.
O Ministério Público Federal de Campos investiga suposta formação de milícias e violação de direitos humanos no município de São João da Barra, no Rio de Janeiro, onde será construído o Porto do Açu, empreendimento do grupo EBX, do empresário Eike Batista.
Seguranças privados e policiais militares estariam atuando de forma truculenta e arbitrária na desapropriação de agricultores e pescadores da região, de acordo com nota do MPF.
Segundo a assessoria da LLX, braço de logística da EBX, a desapropriação no local é de responsabilidade da Codin (Companhia de Desenvolvimento Industrial do Estado do Rio de Janeiro), e o empreendimento do Porto do Açu, ainda em construção, conta com segurança privada nas portarias que dão acesso ao local.
Já a Codin disse em nota "desconhecer completamente questões relativas à atuação de milícias em São João da Barra" e que a suspeita não condiz com os métodos de atuação do órgão. "As desapropriações foram e serão feitas na forma da lei."
Censo de 2010 localizou 6.329 áreas irregulares e precárias em 323 cidades; juntas, elas equivalem à população da Grécia
Dez anos atrás, IBGE havia contado cerca de 6,5 milhões de pessoas morando em favelas no país
ANTONIO GOISDados do Censo 2010 revelam que 11,4 milhões de brasileiros, o equivalente à população da Grécia, vivem em áreas ocupadas irregularmente e com carência de serviços públicos ou urbanização, como favelas, palafitas, grotas e vilas. São 6% dos habitantes do país.
É o retrato mais preciso já feito dessas áreas, e mostra que o problema é concentrado nas regiões metropolitanas, mas espalhado por todos os Estados. Dez favelas têm população maior que 40 mil pessoas, superior a 86% dos municípios brasileiros.
Em 2000, o IBGE identificou 6,5 milhões de pessoas, ou 4% do total, em "aglomerados subnormais", denominação usada pelo instituto.
METODOLOGIA
Não é possível saber quanto do aumento na década se deve à expansão das áreas irregulares e quanto se deve ao aprimoramento da metodologia de pesquisa, como o uso de imagens de satélite.
Em 2010, foram localizadas 6.329 favelas em 323 municípios. Ficam de fora do levantamento áreas precárias, mas regularizadas, ou irregulares, mas sem precariedade.
QUADRO GRAVE
A pesquisa revelou também que o quadro mais grave de moradia está na região metropolitana de Belém (PA), onde 54% da população vive em favelas e similares.
No caso de serviços básicos, o que mais diferencia as favelas das áreas de ocupação regular das cidades é a proporção de casas com coleta adequada de esgoto.
"O fato de existir um alto percentual de pessoas vivendo nessas áreas decorre do Estado brasileiro ter se omitido por décadas em relação a políticas habitacionais, concomitante a um dos processos de urbanização mais intensos da história da humanidade", diz Sérgio Besserman, ex-presidente do IBGE.
Para a relatora especial da ONU para o direito à moradia adequada, Raquel Rolnik, novos assentamentos precários irão surgir no país nos próximos anos. Ela aponta como motivos a elevação dos preços dos terrenos e as remoções mal conduzidas para a realização de obras, como as da Copa de 2014.
"A máquina de produção de favelas está em operação", diz a urbanista.
Palafitas e falta de saneamento básico fazem parte do cotidiano de 54% dos moradores da área metropolitana
Região tem a maior proporção em todo o país de pessoas que vivem em moradias em condições irregulares
Thiago Araújo/Folhapress | ||
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Palafitas no bairro chamado terra Firme, em Belém (PA) |
Os alicerces das casas são de madeira e foram erguidos sobre fétidos córregos que acumulam lixo e dejetos. Quando chove, a água suja invade as casas, que correm risco de desabar.
Nas chamadas palafitas, as habitações da periferia de Belém, o saneamento básico não chegou e a energia elétrica, em alguns casos, é obtida clandestinamente.
A região metropolitana de Belém é a que tem a maior proporção de pessoas vivendo em moradias em condições irregulares (54%). Em números, 1,1 milhão dos 2,1 milhões de habitantes moram em locais precários.
"Se você me perguntar se eu queria ir para um lugar com condições melhores, claro que queria. Mas não temos condições financeiras", diz o vigilante desempregado Carlos Alberto dos Santos, 39.
Ele mora com a mulher no bairro chamado Terra Firme. Sua casa, no entanto, está alicerçada sobre bases nada firmes: estacas de madeira fincadas num córrego sujo.
"Não tem saneamento. A descarga do vaso sanitário cai direto no córrego", afirma.
Até mesmo percorrer o caminho entre duas casas é perigoso. O trajeto é feito por passarelas de madeira esburacadas. Cada vez que alguém passa, as tábuas começam a balançar.
Os moradores dessas periferias reclamam ainda da demora na coleta de lixo, que passa dias acumulado nos córregos, e da constante falta de água.
Por meio de nota, a Prefeitura de Belém diz que vai implantar, no início do mês, o Plano Municipal de Habitação e Interesse Social, que visa criar "diretrizes e estratégias" para reduzir o deficit habitacional. Diz também que está construindo mais de 1.400 moradias regulares.
PRECARIEDADE
A situação é ainda mais crítica no município de Marituba, na região metropolitana. Lá, a proporção de pessoas vivendo em domicílios irregulares chega a 77%.
Em números absolutos, isso corresponde a 83.353 dos 108.251 habitantes contabilizados pelo Censo do IBGE.
Na casa de Antônio Batista de Lira, 54, o banheiro foi instalado no quintal e coberto por uma lona.
Lá, ele e a mulher Maria de Nazaré dos Santos, 65, veem a fossa cavada no chão transbordar sempre que chove forte. Mas a falta de água encanada é o que mais incomoda.
Um carro-pipa abastece semanalmente a casa deles.
Página/12
Os enfrentamentos entre manifestantes que exigem a renúncia do governo provisório que assumiu após a queda de Hosni Mubarak são os mais graves ocorridos neste período de um mês que já dura o acampamento pacífico na Praça Tahrir. Médicos e ativistas políticos disseram que há 498 feridos, por golpes, inalação de gases lacrimogêneos e disparos de balas de borracha. Com as vítimas deste domingo, o número de mortos nesta nova escalada de violência chegou a 42.
A maioria dos feridos sofreu fraturas nas extremidades de braços e pernas e ferimentos por golpes de paus, pedras e pedaços de vidros lançados por agentes desde terraços do edifício do Parlamento na ria Qasr El-Aini, principal cenário da repressão, a poucos metros da praça Tahrir. Por meio de uma nota divulgada por um recém criado conselho assessor, o Conselho Superior das Forças Armadas negou qualquer intenção de desalojar os ativistas que estão há quase um mês acampados em frente à sede do governo e atribuiu a violência ao suposto ataque de manifestantes contra um policial que cuidava do trânsito.
Nos arredores, homens com trajes civis lançavam pedras e garrafas incendiárias contra as forças de segurança. Além disso, segundo os testemunhos, houve um incêndio no Ministério dos Transportes, situado na região, assim como em outros edifícios.
O primeiro ministro Kamal el Ganzuri indicou que 18 pessoas foram feridas a bala, mas assegurou que nem a polícia nem o exército abriram fogo. Ele acusou “elementos infiltrados” que “não querem o bem do Egito”, sem dar maiores detalhes. “Os que estão na praça Tahrir não são os jovens da revolução”, afirmou, referindo-se à revolta que acabou com o regime de Mubarak em fevereiro. “Não é uma revolução, mas sim uma contrarrevolução”, sentenciou.
Neste contexto, onze dos trinta membros de um conselho consultivo estabelecido pelo exército para dialogar com as forças políticas apresentaram sua renúncia em protesto pela repressão. “Havíamos feito algumas recomendações na sexta-feira, mas fomos surpreendidos ao ver que não foram seguidos e que no sábado já havia mais vítimas”, disse o presidente desse conselho, Abul Ela Madi, dirigente do partido islamista moderado Wassat.
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A Amazônia tem câncer e a opinião pública brasileira não sabe porque a imprensa está míope.
Nos últimos dias, dados preliminares de desmatamento da região foram anunciados como "boa notícia" ao mostrar que a destruição reduziu velocidade, quando apenas querem dizer (se comprovados) que o tumor causou a amputação de parte menor do corpo.
Enquanto governo e imprensa fazem festa, o paciente morre. Procedimentos essenciais do jornalismo determinam a desinformação sobre o desaparecimento da maior floresta do mundo. Um exemplo: no dia 16/10, a Folha deu manchete para um inédito levantamento de todas as obras de infraestrutura do PAC para a Amazônia.
A reportagem saiu em "Mercado" e pela primeira vez foi possível ver que está em curso uma série de obras com dinheiro da União que, tantas sendo, não podem ser benignas numa floresta atacada há 40 anos. Mas, como o jornal é dividido em editorias e as notícias devem se submeter a elas, a mesma edição do jornal revelava na editoria "Ciência", páginas distante, que o "país faz mais obras mas diminui gasto com conservação".
A separação das notícias tira do leitor a capacidade de entender fatos complexos, como o atual processo de destruição da Amazônia.
O fracionamento faz com que a tramitação do Código Florestal no Congresso seja tratada em páginas de política; obras de infraestrutura na Amazônia, em economia; o ritmo da devastação florestal, em ciência; as mudanças dramáticas no clima amazônico, em meteorologia.
O ineditismo do levantamento da Folha é prova de omissão frequente da nossa imprensa: não ligar notícias de um dia com o passado. No caso das obras na Amazônia, os jornais nunca somam o impacto de obras já inauguradas com as que são anunciadas.
O governo se aproveita da miopia: jamais anuncia dois projetos ao mesmo tempo, diluindo o impacto de cada um. O próprio índice percentual de destruição total da floresta (estimado pelo Inpe pela análise de fotos de satélites do programa Prodes) é tema de confusão.
O órgão divulga a cada ano quatro levantamentos de satélites diferentes, com dados às vezes contraditórios. Neste ano, os alertas de incêndio e desmatamento dos programas Deter e Degrad indicaram um aumento da degradação, mas os dados preliminares de desmatamento total revelam redução da velocidade de destruição.
Dois defeitos se repetem anualmente na divulgação dos dados do Inpe: (a) ao divulgar percentuais, o instituto esconde a soma dos valores absolutos de desmatamento já acumulado; (b) o noticiário não junta os dados dos programas que medem destruição total (Prodes) e degradação grave (Deter e Degrad), que poderiam revelar à opinião pública o ritmo assombroso da destruição da Amazônia.
Quanto ao primeiro defeito: segundo o Inpe, o desmatamento acumulado das áreas ocupadas por floresta em 1988 é de 18% (ou seja, quase 1/5 da maior floresta do mundo sumiu em 23 anos)! A segunda questão é mais dramática: a cada hectare inteiramente desmatado, outro sofre degradação irreversível.
Ou seja, em 23 anos, o processo de destruição da floresta (desmatamento total e degradação grave) já amputou cerca de 35% da floresta, aproximando-se da previsão, que parecia apocalíptica nos anos 1980, de que a floresta amazônica poderia desaparecer em 50 anos.
A confusão de índices de desmatamento é semelhante à cobertura da inflação anos atrás: em 1989, uma redução da alta de preços de 80% para 20% seria notícia boa se o índice tendesse a zero, o que se deu com o Plano Real, em 1994.
Já a destruição da Amazônia não tem Plano Real à vista: o governo federal quer estabilizar o desmatamento em 5 mil km²/ano, área de três cidades de São Paulo.
Assim, de "boa notícia" em "boa notícia", a floresta morre.
LEÃO SERVA, jornalista, ex-secretário de Redação da Folha (1988-92), é autor de "Jornalismo e Desinformação" (editora Senac).
Cerca de 500 militares cruzam fronteira com Kuait, encerrando guerra iniciada em 2003 contra Saddam Hussein
Em mensagem, Obama elogia o "sacrifício" de milhões de pessoas; 150 militares ficam para proteger a embaixada
Maya Alleruzzo/Associated Press | ||
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Soldado americano fotografa o último veículo militar a deixar o Iraque em direção ao Kuait,marcando o fim do conflito |
Os últimos soldados americanos no Iraque deixaram ontem o país, encerrando uma missão que durou quase nove anos e deixou pelo menos 119 mil mortos.
Um comboio de 110 veículos carregando cerca de 500 militares dos EUA cruzou a fronteira do Kuait pouco depois do amanhecer, no último ato do processo de retirada americana.
Em clima de euforia, muitos militares atravessaram a fronteira com os punhos erguidos em sinal de vitória e foram recebidos com abraços por soldados americanos estacionados no Kuait.
A saída ocorreu três dias após uma cerimônia em Bagdá, na qual a bandeira dos EUA foi descida e encaixotada, na presença do secretário de Defesa, Leon Panetta.
A retirada ocorreu dentro do prazo acordado entre Washington e Bagdá, que estipulava a data-limite de 31 de dezembro.
Ficarão no Iraque cerca de 150 militares americanos responsáveis pela segurança da embaixada dos EUA e pela coordenação com as forças de segurança iraquianas.
Em 2007, no auge da guerra contra grupos insurgentes, os EUA chegaram a ter mais de 170 mil soldados espalhados por 55 bases através do território iraquiano.
O fim da presença militar no Iraque era uma promessa de campanha do presidente Barack Obama, eleito em 2008, que ontem divulgou mensagem homenageando "o sacrifício de milhões de homens e mulheres".
Obama era senador estadual em Illinois quando se opôs à ofensiva em março de 2003 do presidente George Bush e líderes aliados contra o Iraque de Saddam Hussein sob o pretexto, que se revelou falso, de que Bagdá tinha armas de destruição em massa e apoiava a Al Qaeda.
A lendária cantora cabo-verdiana Cesaria Évora morreu neste sábado (17) em um hospital de Cabo Verde, anunciou o ministro da Cultura deste país, Mario Lúcio Sousa.
Évora, de 70 anos e cantora de fama internacional, abandonou definitivamente os palcos há três meses por problemas de saúde.
A cantora sofria há vários anos de diversos problemas e chegou a ser submetida a sérias operações, incluindo uma cirurgia cardíaca em maio de 2010.
"Não tenho forças, não tenho energia. Gostaria que dissessem aos meus admiradores: sinto muito, mas agora preciso descansar. Lamento infinitamente ter que me ausentar devido à doença, gostaria de dar ainda mais prazer aos que me seguiram durante tanto tempo", disse Évora ao jornal francês Le Monde ao anunciar o fim de sua carreira, no dia 23 de outubro.
Esta ex-cantora de bares na cidade de Mindelo, na ilha de San Vicente, tornou-se subitamente uma celebridade mundial com seu terceiro disco, "Miss perfumado", em 1992, e pouco depois realizou dois shows triunfais em Paris.
Évora ficou conhecida como a "diva dos pés descalços", título de seu primeiro disco (lançado em 1988), por cantar sem sapatos em suas atuações, em homenagem aos mais pobres, e as letras de suas canções frequentemente eram dirigidas a essas pessoas.
Mais uma vez, os Estados Unidos concluem uma guerra sem ganhá-la, ao não conseguir impor sua plena vontade aos agredidos. Os soldados norte-americanos não saem do Iraque como saíram de Saigon, em 30 de abril de 1975, escorraçados pelas tropas de Hanói e pelos vietcongs. Desta vez, eles primeiro arrasaram o Iraque, durante uma década de bombardeios constantes.
O despotismo de Saddam não incomodava antes os Estados Unidos, quando coincidia com o interesse de Washington. Tanto era assim, que os norte-americanos estimularam a guerra contra o Irã, e lhe ofereceram suporte bélico e diplomático, mas seu objetivo era o de debilitar os dois países. No momento em que — cometendo erro político elementar — Saddam pretendeu restaurar as fronteiras históricas do Iraque, ao invadir o Kueit, Washington encontrou, com o primeiro Bush, o pretexto para a agressão aérea a Bagdad, a criação da chamada zona de exclusão, em que o bombardeio aéreo era indiscriminado, e o bloqueio econômico.
Foram dezenas de milhares de mortos durante os dez anos de ataques aéreos, prévios à invasão. Entre os sobreviventes da agressão, houve milhares de crianças, acometidas de leucemia pela radiação das munições amalgamadas com urânio empobrecido.
Assim, ao invadir o país por terra, os americanos encontraram um exército debilitado, parte do território arrasado e um governo na defensiva diplomática. O pretexto, que os fatos desmoralizaram, era o de que Saddam Hussein dispunha de armas de destruição em massa.
Ontem, o presidente Obama disse que o Iraque é hoje um “país independente, livre e soberano, muito melhor do que era com Saddam”. Saddam, sabem os observadores internacionais, era muito menos obscurantista do que os príncipes da Arábia Saudita.
Seu povo vivia relativamente bem, suas mulheres não eram tratadas com desrespeito e frequentavam a universidade. Algumas ocupavam cargos importantes no governo, na vida acadêmica e nos laboratórios de pesquisas. Havia tolerância religiosa, não obstante a divergência secular entre os sunitas e os xiitas, que ele conseguia administrar, a fim de assegurar a paz interna.
O vice-primeiro-ministro Tarik Aziz era católico, do rito caldeu. País de cultura islâmica, sim, mas talvez o mais aberto de todos eles a outras culturas e costumes. O país se encontrava em pleno desenvolvimento econômico, com grandes obras de infraestrutura, e mantinha excelentes relações com o Brasil, mediante a troca de petróleo por tecnologia e serviços de engenharia, quando começaram os bombardeios.
Depois disso, nos últimos nove anos, a ocupação norte-americana causou a morte de mais de 100 mil civis, 20 milsoldados iraquianos e 4.800 militares invasores, dos quais 4.500 ianques. Milhares e milhares de cidadãos iraquianos ficaram feridos, bem como soldados invasores, a maioria deles mutilados. As cidades foram arrasadas — mas se dividiram os poços de petróleo entre as empresas dos países que participaram da coligação militar invasora.
Hoje não há quem desconheça as verdadeiras razões da guerra, tanto contra o Iraque, quanto contra o Afeganistão: a necessidade do suprimento de petróleo e gás, do Oriente Médio e do Vale do Cáspio, aos Estados Unidos e à Europa Ocidental. Daí a guerra preemptiva e sem limites, declarada pelo segundo Bush, que se dizia chamado por Deus a fim de ir ao Iraque matar Saddam Hussein. Não só os mortos ficam da agressão ao Iraque. Os americanos saem do país, deixando-o sem energia elétrica suficiente, sem água potável, com 15% de desempregados e, 85% dos que trabalham estão a serviço do governo.
Toda a história dos Estados Unidos — ao lado de méritos fantásticos de seu povo — foi construída no afã da conquista e da morte. Desde a ocupação da Nova Inglaterra, não só os índios conheceram a sua fúria expansionista: na guerra contra o México, o país vencido perdeu a metade do território pátrio, o que corresponde a quase um terço do atual espaço norte-americano no continente.
Uma das desgraças da vitória americana foi a ruptura do Compromisso do Missouri, com a ampliação do escravagismo aos novos territórios, que seria — pouco mais de dez anos depois — uma das causas do grande confronto interno, entre o Sul e o Norte, a Guerra da Secessão. Lincoln, que a enfrentou, havia sido, em 1847, um dos poucos a se opor ao conflito contra o México.
A partir de então, a ânsia imperialista dos Estados Unidos não teve limites. Suas elites dirigentes e seus governantes, salvo alguns poucos homens lúcidos, moveram-se convencidos de que cabia a Washington dominar o mundo. Ainda se movem nessa fanática determinação. Agora, saem do Iraque e anunciam que deixarão também o Afeganistão, no ano que vem. Mas, ao mesmo tempo, dentro da doutrina Bush da guerra sem fim, preparam-se para nova agressão genocida contra o Irã.
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